sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Não resisti e... chorei

Escrevo com a emoção ainda em relevo em minha alma para relatar a grandiosa experiência da acolhida da cruz da Jornada Mundial da Juventude em nossa arquidiocese.

Acompanhamos a excitação dos jovens que, desde sábado, na ‘peregrinação’ à Registro, nos informavam cada passo que davam, alimentando-nos o desejo de também estar lá, participar daquela missa e tocar a cruz que tanto viajou e uniu jovens no mundo inteiro. Mas domingo, esta ansiedade perdeu espaço para o grandioso sentimento que atingiu a todos os que se encontravam nos estúdios da TV século XXI, ao avistarem a Cruz e o ícone, singelamente carregados por jovens que nos representavam.

Sem dúvidas uma emoção ímpar, sem precedentes! Em todos os lados víamos pessoas que tinham que externalizar o que sentiam internamente. Muitos gritos, assovios, pulos... alegria que se manifestava no choro, mostrando que o sorriso já não mais correspondia ao que estava acontecendo. Um momento de Kairós, sem dúvidas.

Parecia que nos era possível ver a emoção em estado puro, destacado daquele que a vivia. A competência dos organizadores; a alegria e animação do Padre Jonas, Padre Rodrigo e tantos outros nos projetavam a outra esfera, a outro espaço; fisicamente o mesmo, mas espiritualmente, um espaço que a nossa consciência não pode decifrar.

Nossa Arquidiocese viveu um momento de graças que, como tantos outros vivenciados nesta Igreja particular, mostrou a cara jovem da nossa fé.

Para quem não estava presente no encontro, pode ser difícil entender como quase seis mil jovens, vindos de todas as cidades da Arquidiocese, dedicaram-se à venerar uma cruz – símbolo da morte do Cristo. Mas na consciência de cada um que lá estava, não era esta a ideia. Todos sabiam que, para chegar à Ressurreição, Cristo passou pela cruz; ela é, portanto, sinal da sua presença viva, humana e divina no nosso meio! Isto é tão verdadeiro que, ao acolherem-na, o hino entoado por todos foi o “ Deus Conosco”; Emmanuel, hino da JMJ do ano 2000, em Roma.

Nesta hora algo incrível aconteceu... jamais poderemos rotular o sentimento que tivemos... a única coisa que nos sobrou foi chorar e eu também não resisti... chorei.

“somos a igreja da Cruz, por isso a exaltamos, Senhor...”



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Campanha da Fraternidade e a filosofia Carpe Diem

"Carpe Diem: quam minimum credula postero". Comum nas ideologias modernas, essa frase de Horácio, que significa em uma tradução livre "viva o hoje, não se preocupe com o amanhã", encontra nos jovens seu público mais receptivo.

Uma cultura de liberdade irresponsável, que tenciona os jovens a buscarem no materialismo e no consumismo como meios de obtenção de prazer vem sendo disseminada e adotada por muita gente que, inspirados no prazer imediato e inconsequente, cultivam em si um sentimento egoísta e perecível.


Viver os prazeres do momento podem ser convidativos, e todos devemos concordar: é a bola da vez. Você quer andar na moda? Quer ser bem aceito? Desencana! Está pensando em casar? Rapaz! O casamento é uma “instituição falida”. Ser descolado e desencanado pode ser legal, mas um pouco de responsabilidade própria e social não fazem mal a ninguém. Aliás, só fazem bem. A começar por você.

E se pensarmos num modo global então? O que estamos fazendo com a nossa casa? Onde a filosofia “Carpe Diem” tem nos levado? O que você consome sem necessidade, vai gerar necessidade pra quem?

Humberto Gessinger, um dos grandes filósofos do nosso tempo, relatou em seu livro: “’Vivo como se não houvesse amanhã’, ‘Só me arrependo do que não fiz’. São frases muito comuns nos nossos dias. Destas que, de tanto ouvir, aceitamos sem pensar. Como música de elevador e papel de parede. Essa salada de autoajuda-histérica-consumista é o prato do dia. Todos os dias. Viver como se não houvesse amanhã, às vezes, pode ser traduzido como: trocar de celular sem necessidade e pagar com cartão de crédito. Sem crédito. Imagine se todos os chineses, repentinamente, começassem a viver como se não houvesse amanhã. Queimaríamos o planeta. Ops, já estamos queimando! Só aumentaria a velocidade do jogo, do fim. Queimar o planeta uma geração antes ou depois, que diferença faz? Ops, uma geração é gente pra caramba! Uma pessoa já é gente pra caramba! Faz toda a diferença do mundo.”

Deu pra entender?

Não preciso nem citar os tantos casos de destruição, de mortes, que ocorrem de modo cada vez mais constante graças ao impacto ambiental que causamos. São pessoas, são vidas, são almas. E fazer a diferença é tão simples. Comece por você. Só você pode fazer. E essa é a proposta da Campanha da Fraternidade da CNBB deste ano. Queremos denunciar o que há errado sim, mas a campanha vem durante a quaresma, um tempo de recolhimento, justamente para que você comece a criticar primeiramente você mesmo. No pouco de errado que você faz.

Mas daí você, jovem, pensa: “vivo o hoje porque amanhã nem sei se estarei aqui!”.

E daí?

Alguém estará! E a vida desse alguém é responsabilidade sua.

Pense nisso.

Texto escrito por Cristiano Borges, encontrado em:

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Amor Líquido


Há um bom tempo eu venho refletindo sobre a fragilidade das relações humanas. Me parece que as nossas relações se tornaram mais frágeis na mesma proporção que o mercado nos oferece “novidades descartáveis”. Assim, não seria muito boçal imaginar que, também as amizades, se tornaram desnecessárias quando não mais precisamos delas.

É claro que este pensamento teria um embasamento maior se avaliássemos os últimos grandes acontecimentos, – por exemplo, a Revolução Francesa, ou a queda do Muro de Berlin – realidades que inauguraram, cada uma a seu tempo, o espírito de que as relações humanas devem ser cravadas ao sabor pessoal; mas minha intenção é bem mais elementar: borrifar meu pensamento, sem a intenção de chegar a uma conclusão. Sim, minha intenção não é concluir algo que sei que não conseguirei concluir. Nosso pensamento é muito rápido e mutável. A conclusão que eu chegaria hoje seria a negação da mesma questão amanhã!

O Jornal paulista “Estadão”, notificou, no início de setembro, que a rede social, comumente chamada por nós de ‘Facebook’ ultrapassou aquele que durante anos deteve a liderança na comunicação, principalmente entre os jovens, o ‘Orkut’. Um mapa apontava que, em oito meses, mais de 20 milhões de pessoas se inscreveram neste site para manter contato com amigos, ou ainda procurar novas amizades.

O engraçado desta realidade (e digo isso sem crítica nenhuma, pois enquanto escrevo, minha rede social está minimizada na barra de tarefas do computador), é que estes dados nos mostram uma possível resposta à pergunta que esbocei no primeiro parágrafo: “porque estamos nos tornando mais inconsistentes às relações?”. Somos milhões de pessoas que se comunicam e não se comunicam! Somos pessoas sozinhas falando para pessoas sozinhas! Outro dia, um rapaz pediu que eu o adicionasse como amigo em uma destas redes. Nos comunicamos, ele me mandou recados e informações até mesmo para minha função pastoral. Para meu espanto, três dias após a minha aceitação dele no grupo, o encontrei e, pasmem, não sabia quem eu era. (e olha que o meu avatar está atualizado).

Sei que a fragilidade das relações não é culpa somente da tecnologia. Questões pós-modernas, sociais, etc. poderiam ser facilmente elencadas e colocadas no bojo do individualismo.

Para fundamentar um pouco mais esta indagação, sugiro como leitura um primoroso livro, que há dias terminei a leitura: Amor Líquido, do Polonês Zygmunt Bauman. Fundamentalmente o livro trata das relações que se estabelecem com extraordinária fluidez, que se movem e escorrem sem muitos obstáculos, marcadas pela ausência de peso, em constante e frenético movimento. Bauman, em outros livros, já havia afirmado que este processo de fragmentação dos laços sociais não é um desvio de rota na história da civilização ocidental, mas uma proposta contida na própria instauração da modernidade.

Para Bauman, a necessidade por fazer escolhas que nos garante a troca num espaço muito curto de tempo, não apenas orienta as decisões do mercado, mas também parece comandar o ritmo da busca por companheiros e amigos sempre novos e cada vez mais satisfatórios. A ordem do dia nos motiva a entrar em novos relacionamentos sem fechar as portas para outros que possam eventualmente se insinuar com contornos mais atraentes.

Mesmo indicando a realidade como um grande quebra-cabeça, montado à luz dos interesses pessoais, o autor não indica caminhos de como solidificar a liquidez das relações. Penso, porém, que resgatar valores e promover a pessoa humana, direcionando-a ao caminho da alteridade é a única forma de sucumbir às amarras da estéril ideia de que liberdade é viver sem necessitar dos outros.